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Roger Scruton - "Dois conceitos de beleza"

Livro: Beleza

Autor: Roger Scruton

 

Dois conceitos de beleza

"Como consequência, julgar a beleza não é apenas declarar uma preferência: esse juízo exige um ato de atenção. Além disso, ele pode ser expresso de diversas formas. Menos importante que o veredito final é a tentativa de demonstrar o que é correto, adequado, digno, atraente e expressivo no objeto – em outras palavras, a tentativa de identificar o aspecto da coisa que reclama a nossa atenção. A palavra "beleza" pode muito bem não aparecer em nossas tentativas de articular e harmonizar nossos gostos. Isso sugere a existência de uma diferença entre o juízo da beleza, visto como justificação do gosto, e a ênfase que se dá à beleza como forma de agradar esse juízo. Não há contradição nenhuma em afirmar que a pintura do Mandarim Maravilhoso, de Bartók, é rude, repugnante, talvez até feia, porém ao mesmo tempo trata-se de um dos triunfos dos primórdios da música moderna. Suas virtudes estéticas pertencem a uma ordem diferente das virtudes estéticas da Pavane de Fauré, cujo objetivo – alcançado – é apenas ser primorosamente bela.

Essa ideia pode ser expressa também pela distinção de dois conceitos de beleza. Em um deles, "beleza" significa o êxito estético; no outro, apenas certo tipo de êxito estético. Existem obras de arte que destacamos por sua beleza pura – obras que nos deixam "sem fôlego", como o Nascimento de Vênus, de Botticelli; a "Ode a um Rouxinol", de Keats; ou a ária que Susanna entoa no jardim em As Bodas de Fígaro, de Mozart. Essas obras são às vezes descritas como "arrebatadoras", o que significa que exigem admiração e reverência e que nos enchem de um deleite despreocupado e reconfortante. E, visto que as palavras, no contexto do juízo estético, são vagas incertas, frequentemente reservamos o termo "belo" para obras desse tipo, no intuito de sublinhar de modo especial o tipo de encanto arrebatador que exercem. Também nas paisagens e nas pessoas encontramos exemplos puros e de tirar o fôlego, os quais nos deixam atônitos e conseguem nos satisfazer apenas nos banhando com seu resplendor. Além disso, louvamos essas coisas por sua beleza "absoluta" – o que insinua que, se tentássemos analisar o efeito que elas exercem sobre nós, as palavras não dariam conta.

Poderíamos até mesmo chegar ao ponto de dizer, acerca de certas obras de arte, que elas são belas demais, eu arrebatam quando deveriam inquietar, ou então que propiciam um encanto onírico, quando o que se faz necessário é um gesto pungente de desespero. Poderíamos dizer isso, creio, do In Memorian, de Tennyson, talvez até do Réquiem de Fauré ­– muito embora ambos sejam, cada qual à sua maneira, triunfos artísticos sublimes.

Tudo isso sugere que devemos tomar cuidado para não darmos demasiada atenção às palavras, inclusive àquela que define o tema deste livro. O que interessa, antes de mais nada, é um certo tipo de julgamento para o qual o termo técnico “estético” tem sido hoje comumente empregado. A sugestão de que poderia haver um valor estético supremo – ao qual se deveria reservar o termo “beleza” – é algo que devemos ter em mente. Por ora, contudo, é mais importante compreender a beleza em seu sentido geral, isto é, como objeto do juízo estético.”

Fonte: Beleza/ Roger Scruton; tradução Hugo Langone. – São Paulo: É Realizações, 2013.

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